ENQUANTO NADA ESTIVER PROVADO DEFINITIVAMENTE, EXISTIRÁ A ESPERANÇA DE QUE HÁ MUNDOS MELHORES DO QUE ESTE ...

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

A face

A estrada já era suficientemente mal iluminada à noite para ela sequer pensar em sair de carro, quanto mais arriscar-se a enfrentar sozinha o nevoeiro que, insidiosamente, tomara conta da escuridão. Pela rádio, os habitantes da zona haviam sido alertados para as fracas condições de visibilidade que, de tão más que eram, as autoridades recomendavam que todo e qualquer trânsito pela estrada velha devia ser efectuado com a maior das cautelas, dado que a neblina que, entretanto, se formara na praia e paulatinamente cobrira todas as casas da vizinhança punha em risco não só a segurança dos peões como a dos motoristas e não havia qualquer previsão de que o fenómeno se fosse levantar tão cedo. A rapariga, porém, não dava sinais de preocupada. Aquela estava muito longe de ser uma situação que ela já não tivesse vivido noutras noites semelhantes. De facto, a pequena vila piscatória onde nasceu - a qual, nos últimos anos, conhecera um súbito aumento de população - era famosa pela ocorrência de nevoeiros que, de tão banais que se tornaram, as pessoas aprenderam a não lhes dar importância, salvo se ocorressem à mistura com outros fenómenos atmosféricos. No entanto, apesar de aquela noite ser tão semelhante a outras em que se limitara a ir para a cama mais cedo, algo lhe dizia que estava perante uma ocasião especial. Por mais que tentasse perceber, não era capaz de explicar por que razão tinha de sair dali e partir para um lugar desconhecido. Assim, cedendo a um qualquer impulso irracional primário e contrariando todos os alertas que tinha ouvido até aquele momento, a rapariga pegou no carro e partiu em direcção às montanhas. Sentia-se invadida por uma calma desconcertante, quase celestial, que em tudo contrastava com os avisos que as autoridades insistentemente faziam emitir pela rádio.



Estrada. Um gato branco atravessou-lhe o caminho. "Azar" - pensou - "Quase que matava o pobre do animal". Se não tivesse reparado naqueles dois pequeninos pontos brilhantes que subitamente emergiram do nevoeiro, era mais do que certo que poderia contar no seu historial de condutora com a primeira morte por atropelamento. "Mas ... se um gato tem sete vidas, ainda lhe sobram seis ... Não era caso para ficar tão preocupada ..." - pensou divertida.

Uma canção ecoou-lhe nos ouvidos. Conhecia-a bastante bem para a reconhecer de imediato.

This is just an ordinary day. Wipe the insecurities away ... Beautiful girl ...

Aumentou o volume do som. Ah, conhecia tão bem aquela canção dos Cranberries! E vinha mesmo a calhar! A viagem a correr lindamente e, por sorte, ainda apanhou a sua música favorita na rádio! Sim, aquela viagem ia ser feita com o volume no máximo ... Ainda que os outros condutores mal a pudessem ver, certamente que não deixariam de a ouvir ...

Foi aumentar ainda mais o volume, porém, subitamente, algo desviou-lhe a atenção. Algures, surgida no meio do nevoeiro, ela viu ... algo ... não sabia identificar o quê ... Pareceu-lhe que era uma face ...

MAS O QUÊ ...??!!!!

Beautiful girl
Don't you throw your love around
What in the world, what in the world
Could ever come between us?


Quis gritar, mal acreditando no que vira, mas os acontecimentos que se seguiram não a deixaram ter tempo para sequer abrir a boca. O carro embateu contra a encosta da montanha, depois de ter sido atingido violentamente pelo veículo que seguia no sentido inverso. Num segundo, toda a sua vida passou diante dos olhos ...

Então veio uma luz ... e alguém a chamou ... Uma voz longe, muito longe ...
Não era capaz de fixar nada do que aquela voz lhe dizia. Apenas o som da música, indiferente, continuava a insistir no seu ouvido. Com toda a violência do embate, o rádio parecia ter sido o único instrumento que resistira ao choque. Bradava como um louco na escuridão, confundindo-se com a outra voz que a chamava ...

"Beautiful girl, beautiful girl
I'll never let you down
Won't let you down
Down, down..."

Foi a última coisa que ouviu ...

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