ENQUANTO NADA ESTIVER PROVADO DEFINITIVAMENTE, EXISTIRÁ A ESPERANÇA DE QUE HÁ MUNDOS MELHORES DO QUE ESTE ...

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

O poço das tarântulas



Apanhara um susto de morte ao avistar aquela figura pálida e magra que lhe acenava em sinal de reconhecimento. Tantos anos se passaram desde a última vez em que lá esteve, que nunca imaginara que o homem forte e bem-disposto que um dia conhecera, há mais de trinta anos, se tinha tornado, com o tempo, num velho frágil e doente, cansado demais para sequer manter o braço levantado durante muito tempo.
O homem mais jovem sorriu em reconhecimento ao aceno que o idoso lhe enviava e este meneou a cabeça em resposta ao sorriso, porém não era um adulto que sorria para aquele velho, mas sim, a criança que um dia fôra e que, naquele instante, sobrepusera-se à máscara de mentiras e conveniências com que se habituara a viver desde o dia em que, subitamente, descobrira que o mundo grande era muito mais complexo e perigoso do que o pequeno universo familiar em que se movia. Abraçaram-se efusivamente, e, logo de seguida, o homem mais velho mostrou ao visitante em que estado se encontrava a casa onde, durante alguns anos, vivera a sua infância - a sua primeira infância - de cujas remotas lembranças nunca lograra saber se eram reais ou meras fantasias de criança.

Calcorreou o terreno íngreme do quintal onde brincara naqueles tempos recônditos e foi aí que tropeçou na recordação. Durante anos, jurara a si próprio que aquela imagem asquerosa que, por vezes, o tinha assaltado em noites de pesadelo não passava de uma fantasia criada por uma mente demasiado fértil e necessitada de atenção. Aquele quintal tinha sido o seu refúgio. Tantas vezes imaginara como seria quando lá voltasse que, agora que ali se encontrava, sentia-se meio perdido, distante, como que desajustado da paisagem à sua volta. Ainda sequer percebera muito bem por que razão se lembrara de contactar o caseiro que durante uma vida inteira tinha cuidado daquele local, como se aquele pedaço de terra tivesse sempre pertencido a ele e a mais ninguém. Mas agora que ali se encontrava, podia jurar a si próprio que aquela recordação nada tinha de inventado, era real, tão real como ele se encontrava naquele espaço. O poço tinha estado ali, mesmo encostadinho à velha habitação ... Sim, aquela imagem tinha sido o terror dos seus pesadelos. Tantas noites ela lhe viera em sonhos que ganhara uma terrível fobia àqueles seres patanhudos. A escuridão do poço, quando olhou lá para dentro, incutira-lhe um profundo terror, ancestral, não tanto por não conseguir ver o que se encontrava lá em baixo, mas pela estranha criatura que dela emergia - uma tarântula. Como se a mente o tivesse censurado, não se lembrava do que acontecera a seguir, mas aquela recordação haveria de persegui-lo anos e anos a fio. Voltou a sorrir. O velho comunicara-lhe que o poço tinha sido tapado e já não existia ali. Então, deu-se conta de que também ele precisava de enterrar esse passado que o atormentara durante tanto tempo. Na verdade, tempo demais ... Talvez tivesse sido esta, afinal, a razão da sua presença ali.

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