ENQUANTO NADA ESTIVER PROVADO DEFINITIVAMENTE, EXISTIRÁ A ESPERANÇA DE QUE HÁ MUNDOS MELHORES DO QUE ESTE ...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

A máquina de lavar (história de um eco-bronco)


Há vinte anos que utilizava aquela máquina. Comprara-a numa altura em que a vida lhe sorria e o futuro assemelhava-se a um caminho de sonhos e promessas por cumprir. Habituara-se a vê-la trabalhar dia sim, dia não, limpando a sujidade das roupas que utilizara após um dia cansativo de trabalho. Bem podia dizer que, ao fim de vinte anos, aquela escrava trabalhadeira tinha cumprido perfeitamente o seu papel. Sem dúvida que tinha sido bem empregue o investimento que em tempos fizera na máquina. Um dia, porém, a sua preciosa ajudante deixou de funcionar e, nessa altura, como não podia deixar de ser, tomou a única decisão lógica que podia tomar numa situação daquelas: deitá-la ao lixo.

Contudo, fazia-lhe espécie depositá-la assim, sem mais nem menos, no passeio. A sua consciência ecológica alertava-o de que deitar aquele monstro (não lhe tinha parecido um monstro até então) para a rua, constituía não só um crime ambiental como também uma falta de respeito para com o objecto que lhe fora tão fiel durante os últimos vinte anos. Decidido, por isso, a não cometer tamanha leviandade, telefonou para a Câmara Municipal, a fim de que viessem levantar o defunto equipamento e lhe dessem o funeral condigno que merecem todos aqueles que, em vida, trabalharam de forma tão honrada e servil. Marcou uma hora para o camião levantar a máquina. À hora marcada, colocou-a no passeio (não sem antes pensar em como o tempo voara desde que a comprou...) e tristemente ficou a observá-la por alguns instantes, em tom de despedida. Por fim, foi para casa.

Meia hora não se tinha passado, quando deu por si a verificar, da janela, que a máquina já não se encontrava no lugar. "Estranho" - indagou - "Não contei que viessem levantá-la tão rapidamente". E mais não pensou.

Uma semana depois, dava um passeio pela floresta. Era algo que habitualmente fazia, impelido pela consciência ecológica que não o deixava cometer crimes de lesa-natureza. Na verdade, indignava-se frequentemente pelo desleixo com que, habitualmente, as pessoas lidavam com o ambiente. Caminhava, assim, pela floresta quando, subitamente, algo captou a sua atenção. Era grande e em tudo destoava do cenário de árvores, pássaros, silvas e água que tinha à sua frente. Na verdade, não precisou de muito tempo para reconhecer aquela imagem familiar que em tudo condizia com o tamanho, a cor e o símbolo desenhado mesmo por cima da portinhola. "A minha máquina! Aqui?!??". Perdida no meio das árvores estava a sua máquina de lavar que algum bronco, não tão escrupuloso como ele, se lembrara de levar para casa a fim de aproveitar peças usadas.

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