ENQUANTO NADA ESTIVER PROVADO DEFINITIVAMENTE, EXISTIRÁ A ESPERANÇA DE QUE HÁ MUNDOS MELHORES DO QUE ESTE ...

sábado, 10 de maio de 2008


O véu entre dois mundos dissipava-se à minha volta, ao mesmo tempo que pesadas nuvens cinzentas passavam por cima da minha cabeça, arrastadas pela ventania que as transportava em peregrinação a lugar nenhum. O rufar dos tambores da fanfarra, que treinava no clube desportivo de onde eu acabara de sair, tornava-se cada vez mais apagado e longínquo, não sei se por causa do ruído ensurdecedor do vento que anunciava chuva ou se das árvores que se curvavam como varetas ao sabor dele, estalando e crepitando em alto som, como se estivessem a dar as boas vindas à tempestade que se aproximava.

Eu entrara para dentro do carro - vidros completamente fechados - como que a tentar isolar-me daquele mundo cada vez mais ruidoso que se fazia sentir lá fora. Momentaneamente, experimentei a tranquilidade do silêncio, mas o vento que soprava no exterior insistia em fazer notar a sua presença, assobiando melodias cada vez mais estridentes e desafinadas à medida que conseguia penetrar pelas frestas das janelas e portas do meu carro, sacudindo-o como num terramoto e transformando-o numa espécie de castelo fantasma em noite de temporal ...

Pouco a pouco, o ambiente foi-se modificando. A natureza, paulatinamente, transformava-se numa realidade sobrenatural, que eu previa vir de encontro a mim, muito embora eu não a quisesse abraçar. Na verdade, não sabia se era o véu que, já então, se tinha dissipado completamente ou se era eu que penetrara nele sem querer, ao tentar fugir daquela realidade que me atormentava. Não sei responder ... Só sei é que aquela nuvem de poeira que se levantou em forma de redemoinho, contornando e sacudindo o meu carro, pedia-me a todo o custo que eu não a ignorasse. Ou então, se calhar, era eu que tinha solicitado ao vento - único elemento concreto naquela paisagem - que não me abandonasse de todo no meio daquele universo surreal.

1 comentário:

Anónimo disse...

Por vezes, também eu entro nesse imaginário, sem querer.

 
Blogalaxia