Detive-me um instante à porta do saguão, numa aguda incerteza se devia continuar aquela marcha ou simplesmente desistir de tudo ali mesmo. Uma infinidade de justificações inundavam a minha cabeça, impedindo-me de pensar racionalmente e decidir, de uma vez por todas, se havia de continuar em frente ou voltar e refazer de novo todo o caminho até então percorrido.
"Vai" - disse-me uma voz interior que não me reconfortava minimamente, mas à qual eu obrigara-me a dar ouvidos - "Vai e tira de uma vez por todas as tuas dúvidas".
Segui aquela voz ...
A escuridão era total e tenebrosa. Aqui e ali ouviam-se pequenos ruídos guinchantes como se, ao contrário do que dizia a voz corrente do povo, a casa não tivesse sido completamente abandonada há décadas. Eram ratos, como é óbvio, os únicos seres vivos que, aparentemente, davam mostras de não terem medo de viver naquele espaço abandonado e que, por isso mesmo, se tinham apoderado da mansão velha de forma tão mansa e imperceptível que ninguém se lembrara de os contar no rol dos seres que a habitavam ...
Avancei com calma, procurando tactear um caminho invisível no meio daquele breu. "Se ao menos eu conseguisse abrir uma janela ..." - pensei já meio arrependida daquela empreitada.
Um feixe de luz atravessou o meu caminho. Vinha de uma das janelas entreabertas que oscilavam ao sabor do vento. Naquele milésimo de instante em que a claridade se fez sentir, pude vislumbrar as escadas que levavam à cave. Elas tinham estado sempre ali, mas a escuridão daquele local fizera ponto de honra em escondê-las até que a luz finalmente revelasse o seu esconderijo. Escadas que levavam a mais escuridão ...
Naquela altura, os meus olhos já se tinham habituado de tal forma ao ambiente que era possível distinguir os contornos dos poucos objectos que tinham ficado para trás: uma bicicleta velha, a faltar uma roda, provavelmente trazida por uma das crianças aventureiras que, em tempos, se tinham tornado testemunhas e que, por isso mesmo, nunca mais ousariam lá pôr os pés; um vaso partido, encostado a um canto; um tapete velho em frente a uma porta que provavelmente daria acesso a uma sala; um par de luvas rotas ...
A porta da cave estava aberta, escancarada. Sentia-me parcialmente aliviada por me ter livrado do incómodo de a abrir. Dirigi-me às escadas. O feixe de luz que, momentos antes, atravessara o saguão, aparecera de novo, parecendo seguir-me e indicando-me o caminho. Parei. Pude constatar, para meu horror, que uma enorme aranha cinzenta descia por um fio de teia em direcção ao batente da porta. Recuei, enojada. Pensei nas surpresas ainda mais desagradáveis que me poderiam esperar lá em baixo. Que ideia a minha ter-me lembrado de visitar um lugar tão sinistro!
"Vá, lá! É agora que vais ter medo?" - sussurrou-me novamente a voz interior.
O feixe de luz continuava ali, a indicar-me os degraus que desciam para uma escuridão ainda mais tenebrosa. Pé após pé, deslizei por cada um dos degraus, atenta ao mínimo sinal de perigo que pudesse aparecer.
Já ia a meio das escadas quando o feixe de luz subitamente desapareceu. Sozinha naquele local só me apetecia gritar e correr dali para fora. Tinha sido uma ideia estúpida ter entrado naquele sítio. Que me interessavam aquelas histórias sem pés nem cabeça contadas por crianças imaginativas? Já era crescidinha o suficiente para não acreditar em lendas ...
Virei costas e comecei a subir de volta os degraus, com todo o cuidado que a situação merecia, mas um ruído chamou a minha atenção. "Bolas, os ratos! Ainda por cima isto!".
Ia a correr os degraus quando o feixe de luz voltou e incidiu violentamente na minha cara. Apanhada de surpresa por aquela luz que, momentaneamente, me cegara os olhos, virei o rosto. Foi então que, ao fundo das escadas, um sublime instante de percepção visual me fez compreender finalmente que as histórias infantis, mais do que imaginadas, eram absolutamente REAIS ...
ENQUANTO NADA ESTIVER PROVADO DEFINITIVAMENTE, EXISTIRÁ A ESPERANÇA DE QUE HÁ MUNDOS MELHORES DO QUE ESTE ...
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
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